Deficientes visuais têm entidade atuante

Um véu negro tapou seus os olhos e o mundo externo tornou-se uma mancha escura. O que ilumina o dia a dia dos 742 membros da Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi) não é mais o Sol, mas uma estrela própria que existe dentro deles. Movidos pela vontade de superar obstáculos, muitos saem de casa e avançam no escuro, partindo em busca da inserção no mercado de trabalho ou de maior integração social por meio de cursos e oficinas oferecidos pela associação

Para devolver o prazer da leitura e da informação, durante as segundas, terças e quintas-feiras, a Adeviudi promove um curso de alfabetização em braile. Dois professores totalmente cegos revezam-se para ensinar a técnica. “Não é só porque a pessoa é cega que ela tem de ficar em casa trancada”, disse o presidente da associação, Ivando Pereira de Araújo, que possui só 2% da visão após uma sinusite lhe atrofiar o nervo ótico. Segundo ele, duas vezes por semana, um grupo se reúne para aprender Soroban, instrumento japonês utilizado em contas matemáticas. “O trabalho é para o associado e também para a sociedade”, afirmou.

Em uma das 17 salas do prédio da entidade há um laboratório de informática. Já foram dados ali cursos profissionalizantes que acabaram por inserir no mercado de trabalho dois associados. Por meio de um fone de ouvido e um programa especial, o usuário ouve os comandos que efetua no teclado. “Quando teve o curso, eu fiz. Não consegui emprego, mas se tiver outra atividade, vou fazer para me aprimorar”, disse Cristiane Pereira de Souza, deficiente visual desde o primeiro ano de vida.

Após quatro meses internada, a escuridão chegou por completo. A professora e pedagoga Vânia Maria Soares Naves tinha acabado de se aposentar quando contraiu uma meningite fúngica no fim de 2008. A doença lhe atacou o nervo óptico e ela, então acostumada a levar luz a pequenas crianças da rede municipal e estadual de ensino por meio da alfabetização, encontrou-se em pleno escuro. O baque grande, no entanto, não a derrubou. “Tenho uma vontade de viver e lutar muito grande. Eu quero voltar para o mercado de trabalho, pois se fico parada, me dá desespero”, afirmou.

De acordo com ela, por meio da Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi) e de uma empresa parceira, em novembro passado, participou de um curso de massoterapia. “Faremos um curso de aperfeiçoamento do conteúdo e, em breve, iniciaremos o trabalho em uma empresa”, disse.

Faltam voluntários para ensino de música

Além de cursos profissionalizantes, a Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi) oferece oficinas de artesanato, tapeçaria e pintura em tecido para pessoas com baixa visão. De acordo com o presidente da entidade, Ivando Pereira de Araújo, há um grande número de associados interessados no ensino de música. “Temos sala e instrumentos, mas o único problema é achar voluntários. Já fomos atrás de conservatórios e bandas, mas o tempo não possibilitava o trabalho”, afirmou.

Atividades sociais também fazem parte da programação da Adeviudi. Toda quarta-feira, associados se reúnem para dançar no salão da entidade. Para exercitar alguns associados, que muitas vezes não saem de casa por medo ou impossibilidade, são organizadas caminhadas auxiliadas por um profissional. O aposentado Ormando Rodrigues Messias ficou cego há três anos por conta de um tumor cerebral. Morando próximo à Associação, ele afirmou que toda sexta-feira uma professora passa em sua casa para que caminhem juntos durante 50 minutos. “Eu ficava muito quieto desde que perdi a visão”, disse.

Entidade busca recursos para obras

Para trazer mais conforto e promover mais atividades para deficientes visuais, a Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi) planeja iniciar uma obra de acessibilidade em seu prédio. Dentre o programado, está a aquisição de um elevador. “Cerca de 70 associados esperam também a construção de uma piscina para atividades aquáticas”, disse o presidente da Adeviudi, Ivando Pereira Araújo. Segundo ele, a diretoria quer tornar realidade uma série de projetos, desde a aquisição de uma van para transporte de associados até a contratação de funcionários para ministrar oficinas e cursos. O problema, no entanto, é a falta de dinheiro. “São poucas doações, tanto de empresas quanto de governos”, afirmou. De acordo com Araújo, a entidade possui déficit mensal de R$2 mil.

Para amenizar o problema, foram desenvolvidos programas internos, como o “Bem Viver”, cujo associado doa, caso possa, R$10 todo mês. “Deste recurso, 30% é sorteado como forma de ‘vale-água’ e ‘vale-luz’”, afirmou Araújo.

Saiba mais

A Associação dos Deficientes Visuais de Uberlândia (Adeviudi) fica na avenida Segismundo Pereira, 1.355, bairro Santa Mônica.

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